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capítulo
do livro O parto da girafa
de José Ângelo Lopes Hasselmann |
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Uganda
É impossível esquecer-me da cena que vi, através
da janela, durante seminário em que eu falava de Cultura
Organizacional e Integração: uma girafa parindo,
e, em seguida, lambendo seu filhote, que se levantou e saiu andando,
ainda trôpego, mas nos mostrando a beleza daquele início
de vida. Parei para observar, encantado, enquanto os ugandenses
nem se viravam para olhar aquela cena tão comum para eles.
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O
parto da girafa veio confirmar minha convicção
de que técnicas, processos e ferramentas são
auxiliares para Mudanças de Atitude, mas a prioridade
tem de ser a pessoa, com suas características e diferentes
formas de viver a vida, de ver a vida, de estilo de vida e
cultura tão diversos. |
Ficamos numa cidadezinha, Kasese, a 600 km de Kampala (capital
de Uganda); na capital, estava situada a sede do nosso escritório.
Não há vôos para lá, e o único
acesso é por estrada. A população de Kasese
era de cerca de 240.000 habitantes. Era uma cidade realmente muito
atrasada, sem qualquer infra-estrutura, nem lazer. Não
havia programas relacionados à cultura e à educação,
tanto para estrangeiros, quanto para ugandenses.
Em Uganda, tudo é importado. O comércio era facilmente
identificado pelas pequeninas lojas, como mercadinhos, situadas
em ruas sem asfalto, muito sujas, com produtos alimentícios
que não tinham qualquer qualidade. Não tinha cinema,
teatro e um clube. Mas tinha muito, muito mosquito, de toda espécie,
principalmente a partir das 17 horas. A totalidade de estrangeiros,
que passa, trabalha ou vive por lá, evita sair de casa,
nesse horário, e usa sempre camisa de mangas compridas.
O medo de contrair doenças, transmitidas pelos mosquitos,
é constante, e vivíamos um suspense diário;
nesse sentido, afinal, é altíssimo o índice
de doenças, como Ebola, Aids e Febre Amarela. Por esse
motivo, é necessário tomar todas as vacinas, ao
ir para lá.
Em Kasese, há dois grandes parques selvagens nacionais:
o Parque Nacional Rainha Elizabeth e o Parque Nacional de Ewerzor.
Na viagem da capital Kampala para Kasese, passávamos, obrigatoriamente,
por dentro do primeiro, onde havia todos os tipos de animais,
inclusive os muito ferozes; isso e também os assaltos,
provocados por rebeldes ou por ladrões comuns, impediam-nos
de dirigir depois das 17 horas.
A população local dedica-se à caça
e à agricultura, em pequenas plantações.
Muitos não fazem absolutamente nada. A pobreza é
extrema. Os homens têm mais de oito mulheres. A língua
oficial é o inglês, que falam com uma pronúncia
terrível, e, só em Uganda, há mais de 46
línguas tribais diferentes – muito comum em toda
a África.
A presença de rebeldes, que vivem nas montanhas da região,
era motivo de pânico para nós. Eles são perigosíssimos
e, normalmente, têm parentes morando na pequena cidade.
Passei por momentos de imensurável aflição,
no dia em que os rebeldes desceram das montanhas e fizeram verdadeira
atrocidade, matando pessoas e queimando carros e ônibus.
Além desse cenário de terror, é bom lembrar
que estávamos na fronteira com o Congo Belga, outro país
com guerrilhas constantes e muito perigosas.
Em Uganda, há diversas tribos, distribuídas em intervalos
de, no máximo, 12 a 20 km. Os chefes de cada tribo moravam
nas pequenas colinas e em casas muito simples, mas melhores do
que as da população, que vivia em palhoças.
Há preconceito entre as diferentes tribos. Eles não
gostavam de falar sobre isso, mas o preconceito tribal era óbvio
e muito mais forte do que se imagina. Eles não gostavam
de conviver; até aceitavam a convivência, dentro
de limites, mas o sentimento de pertencimento à sua tribo
falava mais alto, e levava, muitas vezes, a confrontos sérios.
Aos domingos, eu ia à missa, numa casinha simples; os de
melhores condições de vida vestiam indumentária
africana, com um detalhe: todos estavam descalços. Na época,
eu era gordo. Branco, de olhos verdes, bem vestido e perfumado
com Armani, senti-me oprimindo aquele povo, e, por isso, fiquei
muito mal. Passei a freqüentar a igrejinha de sandálias
havaianas e calças muito simples, e tentei me aproximar
deles participando de todo o ritual, cantando as músicas,
em ritmo muito forte e alto, como o que cantam nas nossas escolas
de samba. Uma vez, logo após a missa, fui pegar no colo
uma das crianças, com cerca de oito meses de idade; quando
ela me olhou, brancão, gordo, de olhos claros, desabou
num berreiro que me assustou. Ela nunca vira um branco antes!
Posso entender, depois desse episódio, como se sentem as
minorias.
O
Grande Desafio: Hindus e Ugandenses
Na fábrica, fiquei surpreso pelo número de hindus
existentes. Nenhum ugandense ocupava cargo de chefia, mas apenas
os de níveis hierárquicos inferiores; não
tinham noção e experiência de Cultura Organizacional.
Imaginem chefiar estas pessoas...
A novidade é que os chefes eram todos hindus.

Preciso
destacar que, em toda África, vi a expressiva presença
de hindus e sua adaptação àquela vida. Deduzi,
daí, que um dos motivos é a vida na Índia
ter muita semelhança com a dos africanos: muita pobreza,
pele escura, forte misticismo, hábitos diversos, uso das
cores nas roupas e casas e vida extremamente despojada. Também
os hindus estão organizados em castas, e, apesar do sentimento
de pertencimento não ser tão forte como entre os
africanos, há também preconceito entre castas, principalmente
entre os hindus do Norte e os do Sul da Índia. O Norte
é mais sofisticado e a região é mais desenvolvida;
no Sul, fica o domínio dos gurus mais famosos, das pessoas
mais místicas. É, também, a parte mais pobre
da Índia.
Juntem, em processo de Integração, empresa que vinha
da Europa Ocidental e a adquirida. Comparem as diferentes culturas
e os estilos de vida dos empregados.
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Como
propor melhorar a qualificação, competência,
qualidade, produtividade e outros processos, se os subordinados
não aceitavam trabalhar com pessoas de tribos diferentes?
Como propor e implementar mudanças de atitude, se as
chefias obedeciam, com muito interesse e respeito, às
características de suas castas? |
Novamente,
o grande desafio foi priorizar, efetiva e enfaticamente, o Ser
Humano. Nesse contexto, na grande maioria das vezes, era necessário
mostrar a evolução do mundo e dos povos, pois ensinar
apenas como fazer não era suficiente.
Um grande número de pessoas possuía televisão,
mas sem entendimento suficiente da maioria pelo que era mostrado,
exceto de fatos extremamente simples ou relacionados à
música e à moda, muito valorizadas por eles. Lembro
de que seus fins de semana eram extremamente tristes: famílias
inteiras, incluindo crianças e idosos, comiam carne de
cabritos, criados por eles, em casa, e bebiam, sentados em círculo,
até caírem embriagados, dormindo ali mesmo.
Na nossa fábrica, havia pessoas de quatro tribos diferentes:
Bakonso - 50%, Batoto - 20%, Baniakole - 15%, Bachiga - 10% e
outras - 5%. As pessoas mais qualificadas vinham da capital, Kampala,
ou de outros países africanos. Os ugandenses, em geral,
têm características predominantemente autoritárias
e paternalistas. Depois do autoritarismo ditatorial de Idi Amim,
durante décadas, a atitude predominante dos ugandenses
é de falsa submissão.
Os ugandenses mostraram-nos que vivem a vida dia a dia, não
se preocupam com curto prazo, imaginem com longo prazo, e nos
passavam forte sentimento de desesperança no futuro.
Nem é preciso ressaltar as dificuldades para trabalhar
em lugares como este e conseguir resultados, que, ultrapassadas
as barreiras e enfrentados os desafios, sempre vinham, mas em
troca de esforço inimaginável. Para que conseguíssemos
isso, aproveitávamos as oportunidades de cada instante,
de cada minuto, para passar o aprendizado com relação
à Gestão de Pessoas e à Integração,
necessárias e possíveis de implantar, naquela fase
e naquela cultura.
A diversidade e a complexidade do Ser Humano, seu grande desafio
de ter que fazer muito esforço para errar menos, conseguir
fazer as coisas como devem ser feitas, a importância e o
respeito que têm de ter pelas pessoas e suas diferenças,
além de aprender que lidar com pessoas é mesmo difícil,
foram parte extremamente importante na minha missão de
trabalhar com aquela cultura, em decorrência de tudo ser
total novidade, para os dois lados. Eles tinham a cultura muito
individualista e tribal enraizada, com forte consciência
da obediência aos mais velhos e dos valores muito específicos
do povo africano. Eles terem relacionado tudo isso com a nova
realidade do mundo, e compreenderem que, para sobreviver, teriam
de entender e praticar uma forma totalmente diferente de vida,
foi a grande descoberta, foi o grande estímulo que aguçou
sua curiosidade e, ao mesmo tempo, o que mais nos deu trabalho
para fazê-los compreender e aceitar.
Por incrível que pareça, o processo foi mais rápido
do que na Grécia, provavelmente em decorrência da
competição interna e do alto nível de complexidade
de conflitos por competições individuais terem sido
bem mais altos e significativos entre os gregos, o que gerava
um desgaste mental e físico imensurável. E lembrar-me
de que, entre os hindus, os atritos eram culturais, mas, entre
os ugandenses, os atritos eram até mesmo físicos!
Conseguimos, entretanto, muitos bons resultados:
-
a implementação da Comunicação entre
a empresa adquirente e a local;
-
a unificação de diferentes áreas, como:
Informática, Finanças, Contabilidade, Produção
e outras, por meio de processos de Comunicação
e Integração;
-
em Gestão de Pessoas, plantamos o entendimento de ugandenses
e hindus sobre a importância do papel das pessoas, e como
têm de apresentar resultados, mesmo com todas as diferenças;
-
um canal de Comunicação entre a Área de
Pessoal e a Alta Direção;
-
a implantação de Avaliação de Desempenho
(modelo mais simples, inicialmente), Coaching e Gerenciamento
Participativo, entre outros. Este último foi de extrema
ajuda em nossa missão e possibilitou que cada um exercesse
sua opinião que, mesmo em desacordo com o grupo, era
considerada pelas chefias, mostrando um real processo democrático
– ao qual eles não estavam acostumados, nem na
empresa nem no país. Grande parte de meu trabalho foi
mostrar-lhes que poderiam aplicar aquele modelo participativo
não só no trabalho, para melhorar a convivência
e diminuir preconceito e conflitos, mas também nas suas
tribos e castas;
-
o aprendizado mútuo entre chefias e subordinados, que
passaram a ser mais pacientes e compreensivos, para aprender
e transmitir tudo o que passávamos nas dinâmicas;
-
o intenso trabalho com os hindus, porque, como chefes das áreas,
foram os primeiros a passar pelo processo de Mudança
de Atitude. Houve, inclusive, alto grau de dificuldade, porque
o forte misticismo dos hindus do Sul ora ajudava, ora atrapalhava
o processo, devido a eles considerarem tudo pelo aspecto místico-religioso,
e não entenderem que seres humanos podem ser tão
diferentes e complexos, sem estarem diretamente ligados a conceitos
puramente místicos e religiosos. Tivemos discussões
filosóficas e de difíceis conclusões.
Cabe
destacar a vitória que foi a aceitação do
processo por parte de empregados de tribos diferentes. Mesmo com
as dificuldades inerentes à sua cultura, eles compreenderam
que, apesar das diferenças culturais, pessoais e de castas,
era possível a pessoa mudar suas atitudes; que o esforço
para o entendimento das diferenças e a aceitação
da opinião de cada um melhorava o trabalho e resultava
em convivência e colaboração pacíficas.
Ressalto, ainda, o papel do Gerente Geral local, de extrema importância,
pois seu apoio foi fundamental para os subordinados mudarem da
postura autocrática para profissional.
Houve dificuldades para estabelecer comunicação
entre nossa empresa adquirida e a sede da empresa adquirente,
na Europa, decorrente do atraso da tecnologia, em todos os segmentos
da organização, principalmente nas áreas
de Computer Science, Logística e Contabilidade.
A Gestão de Pessoas requereu trabalho e empenho pessoal
intensos, para transmitir ao pessoal e deles conseguir o entendimento
do que é o Ser Humano. Mais um desafio: torná-los
habilitados para lidar com pessoas; afinal, o modelo predominante
era oposto ao que ensinávamos e esperávamos deles,
já que queríamos imparcialidade no julgamento dos
outros, e isso, na cultura tribal é diferente. Ao contrário
de quando julgamos ou analisamos pessoas, é fundamental
o esforço para reconhecer habilidades e competências,
que requerem tempo para serem apreendidas, assimiladas e, finalmente,
praticadas com justiça e imparcialidade, caso contrário,
podemos prejudicar, sensivelmente, aqueles por quem assumimos
responsabilidade.
Resolvemos manter o Sistema Salarial e de Remuneração
muito próximo do que praticavam, e fizemos ajustes apenas
para os dois primeiros níveis de chefia, por se tratarem
de pessoas muito mobilizadas, em função do aspecto
geográfico; logo, poderiam reagir mais negativamente, caso
não pudessem ser integradas ao Sistema de Remuneração
praticado pelo grupo.
Deixamos os resultados dos Assessments, que fizemos, com instruções
para médio e longo prazos, embora para os objetivos serem
alcançados, as ações tenham sido iniciadas
de imediato. O início do trabalho envolvendo deslanchar
o Plano de Carreira ficou plantado, na empresa, com nosso know-how,
sob o comando de um hindu, que permaneceria mais tempo no local
e trabalhava na área de RH. Todas as chefias, inclusive
ugandenses, foram bem informadas do meu trabalho, da nossa missão
e de como o processo deveria funcionar. A continuidade do processo
e a parte prática, por meio de instrumentos e de ações
voltadas às mudanças, demandaram um tempo mínimo
de mais dois anos para implementar. Levamos para a sede, em Kampala,
aqueles que foram identificados, nos Assessments, com níveis
de bom a excelente potencial, para trabalhar diretamente nestes
processos e dar a devida prioridade às ações
necessárias.
O isolamento e as condições de extrema pobreza,
em que trabalhávamos e nas quais eles viviam, foram fatores
determinantes da imensurável dificuldade enfrentada, que,
aliada à total falta de perspectiva de futuro que eles
tinham, pioravam consideravelmente essa ambiência. A possibilidade
de expatriação e o desenvolvimento de carreiras
contribuíram para aumentar a expectativa deles e as perspectivas
de melhoria de vida.
O processo de mudança foi implantado, e espero que ainda
perdure, funcione, seja praticado corretamente por todos e tenha
a merecida credibilidade.
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